Educação · Saúde · Video

#DeveresIguais Pai não ajuda, pai cuida também

Essa campanha é do ano passado, mas vale para todos os anos. Dia dos Pais não é só para comemorar a existência do provedor da família, do cara que cedeu o esperma para a fecundação… Mas sim, comemoração e agradecimento daquele cara que passou noites em claro fazendo dormir, trocou fraldas, levou pra escola e pra aula de balé, disse pro filho que não havia problemas em chorar quando se sentisse triste, deu força para o filho(a) escolher a profissão que mais tivesse afinidade… Enfim, ele não ajudou a mãe a criar, mas sim criou junto.

Educação · Imagem · Saúde

Para eles o bônus, para elas o ônus…

Com o dia dos pais se aproximando, passamos a refletir melhor o que é exatamente “ser pai”. Acho que já é mais do que esclarecido que “ser pai” é muito mais do que um gene e sobrenome, um valor sendo pago todo mês e uma foto no segundo domingo de agosto. Temos que valorizar aquele pai que participa da educação, que pega e leva, que viaja, que briga e elogia, que arruma a lancheira e faz todas as outras coisas que as mães já fazem e não são valorizadas. Valorizar não porque isso é algo incrível, é algo que o faz um super pai, mas sim porque temos que desmistificar que existem funções de mães e funções de pais, até porque a atual constituição familiar não nos permite mais fechar tantos papéis sociais. 

Fiquemos felizes por figuras paternas presentes e conscientes de seus papéis. 

pais

Animais · Educação · Saúde · Vegetarianismo/Veganismo

#SegundaSemCarne Sim, sou vegana, feminista preta

Vou transcrever um trecho do post de Thalita Flor, uma blogueira que fala como é ser vegana, mas não ter muitos recursos. Achei bacana o posicionamento dela porque ela não é daquelas que diz “só não é vegano quem não quer” porque existem realidades diferentes e temos que considerá-las.

Mas porque o veganismo é elitista?
É elitista porque o acesso a informação sobre diversas coisas do mundo vegano não chega na periferia. É elitista porque mesmo não sendo caro o custo da comida, os lugares cobram caro por ela. Porque é criado um conceito que vegetariano é coisa de rico, e pessoas ricas sentem prazer em pagar caro. Por isso muitas vezes o vegetarianismo é associado a coisa de gente “fresca”, porque muito artista, por exemplo, é vegetariano pensando em saúde. E todos nós sabemos que cuidar da saúde é caro.
Uma das coisas que mais me indagam aqui na favela é “nossa, mas não ia conseguir, tem que ter carne no prato pra ficar de pé”. As pessoas não pensam primeiro naquele x-tudo delícia que não iriam mais comer, elas pensam em “preciso ficar forte pra trabalhar”. A gente sabe que o paladar mexe muito com o ser humano, e que temos caprichos. Mas acredite, pra um morador de favela, sua maior preocupação é estar vivo.
Quebrando esse tabu da saúde, chegamos em outro obstáculo: o status.
Ela tem um buffet de comida vegana e, além de eventos, também faz quentinhas para almoço: Banana Buffet
Educação

Resenha do artigo “Burnout: por que sofrem os professores?”

Silva (2006) introduz o seu artigo apontando para a recorrência de um termo nos estudos sobre o trabalho docente nos últimos anos: o Burnout. Concebido como síndrome da desistência, ele está relacionado à dor do profissional que perde sua energia no trabalho por se ver entre o que poderia fazer e o que efetivamente consegue fazer.  De fato, a realidade vivida pelos professores nos últimos tempos depõe sobre o crescente aumento desta síndrome entre a categoria. O aumento da insatisfação com a profissão de docente é comumente atribuído ao desinteresse, à agressividade e à indisciplina dos alunos. A autora do artigo “Burnout: por que sofrem os professores?”, no entanto, buscar ir  além desta justificativa ao problematizar o porquê desta falta de motivação entre os alunos. Partindo da constatação de que nem as melhores intenções dos professores, nem o apelo a inovações pedagógicas vêm conseguido envolver os alunos nas atividades do cotidiano escolar, ela verifica a expectativa dos alunos de que a escola propicie algo mais do que efetivamente lhe é oferecido.

Muitos estudantes freqüentam a escola buscando encontrar apenas um espaço de convivência, pois as favelas onde vivem os condenam ao isolamento social no próprio local de moradia:

seja por decisão da família, que vê na atitude de “prender” os filhos em casa a alternativa possível ao assédio e riscos impostos pelo tráfico de drogas; seja por total falta de apoio e organização familiar, em conseqüência do estado de pobreza em que se encontra a família; seja porque precisam cuidar da casa e dos irmãos enquanto os pais estão no trabalho; seja, ainda, por total abandono da família.(SILVA, 2006,p. 90)

Assim, entende-se que para muitos alunos, a escola representa um lugar onde esperam obter os cuidados que não encontram na comunidade onde moram, nem na sociedade mais ampla. Frustradas as expectativas dos alunos, pois também a escola não lhes supre as necessidades básicas, o resultado é desinteresse, indisciplina, agressividade, fracasso e conseqüente evasão escolar. Tanto a desmotivação por parte dos estudantes, quando a desistência por parte dos professores, configuram reações a uma realidade educacional que denuncia o quanto a escola está longe de cumprir o papel social que o mundo contemporâneo requisita.

Segundo Kuenzer (2004, apud Silva, 2006), o trabalho do professor se objetiva na tensão entre o trabalho em geral (qualificador, transformador, prazeroso) e o trabalho capitalista (mercadoria comprada para valorização do capital), tensão acentuada pela natureza não-material desse trabalho, ou seja, não há separação entre produto e produtor. Esta dimensão específica do trabalho não-material, aliada a outras que são típicas de todas as formas de assalariamento (baixos salários, condições precárias de trabalho, intensificação, estresse, medo de perder emprego, autoritarismo e outras) podem causar a síndrome da desistência, que envolve esgotamento emocional, desenvolvimento de atitudes negativas em relação ao trabalho e falta de envolvimento pessoal no trabalho. Deste modo, o Burnout pode ser definido como sendo:

A dor de um profissional encalacrado entre o que pode fazer e o que efetivamente consegue fazer, entre o céu de possibilidades e o inferno dos limites estruturais, entre a vitória e a frustração; é a síndrome de um trabalho que voltou a ser trabalho mas que ainda não deixou de ser mercadoria. (Kuenzer,2004, apud Silva, 2006).

            O Burnout – termo estrangeiro que se refere ao estresse associado ao trabalho – pode ser traduzido como “perder energia” (SILVA, 2006). O termo representa desgaste e conseqüente falta de produtividade e foi criado em 1969 como fenômeno psicológico que atinge trabalhadores (MALAGRIS, 2004, apud SILVA, 2006).

            Segundo Parker (1999, apud Silva, 2006), as demandas e o controle do trabalho seriam as duas dimensões desencadeadoras do Burnout. Quanto as demandas, haveria o aspectos quantitativo e o qualitativo. O primeiro diz respeito a quantidade de trabalho, levando em consideração tanto a sobrecarga de tarefas quanto o tempo para execução. Para Malagris (2004, apud Silva, 2006), a excessiva carga de trabalho associada a atribuição de tempo inadequado para realizá-lo pode gerar prejuízo no desempenho no desempenho cognitivo, aumento de distress e da reatividade fisiológica.

            O segundo aspecto da demanda do trabalho se refere ao tipo e conteúdo das tarefas. A natureza da demanda – podendo ser ela cognitiva, emocional ou física – é de suma importância (MALAGRIS, 2004, apud SILVA, 2006). Estudos realizados por esta autora apontaram que profissionais que atuam junto aos seres humanos, tais como enfermeiros, médicos, professores e psicólogos, apresentam grande probabilidade de desenvolver estresse, devido ao fato de lidar com as necessidades emocionais dos outros.  Quanto a complexidade do trabalho, Malagris (2004, apud Silva, 2006) demonstrou que a monotonia, como no caso de atividades repetitivas, e a demanda por atenção contínua no trabalho podem ser fatores de risco também, na medida em que geram efeitos adversos para os trabalhadores, tais como a insatisfação. Atividades ligadas a segurança de outras pessoas, e que por isto implicam muita responsabilidade, também se tornam estressantes (PARKES, 1999, apud SILVA, 2006).

            Com relação ao controle do trabalho – apontado por Parkes (1999, apud Silva, 2006) como a segunda dimensão do Burnout – este se reporta a trabalhos em que há falta de controle do ambiente físico, por impossibilidade de participação nas decisões, o que gera falta de motivação.

            O aparecimento do Burnout estaria ligado a causas pessoais, institucionais e características do paciente:

as causas pessoais se devem a “aspirações nobres e elevado idealismo inicial, falta de critério para avaliar seus desejos, sobrecarga auto-imposta e alguns traços da personalidade” e, em relação às causas institucionais, a “sobrecarga de trabalho, discriminação sexual, falta de autonomia e de apoio institucional, ambiguidade, falta de apoio e feedback de chefia e colegas de trabalho” (BONTEMPO, apud MALAGRIS, 2004, p. 201). Quanto à terceira causa, reporta-se ao indivíduo que já foi acometido pela síndrome e, por diferentes motivos, não apresenta melhora (BONTEMPO, 1999, apud SILVA, 2006).

            De acordo com Maslach e Leiter (1999, apud Silva, 2006), o ambiente de trabalho e como este se organiza são os fatores responsáveis, em grande parte, pelo desgaste sofrido pelos trabalhadores nos tempos atuais. Porém, a maioria das empresas atribui o problema unicamente ao trabalhador, se eximindo de responsabilidade.

            De acordo com Bontempo (1999, apud Silva, 2006) e Benevides-Pereira (2002, apud Silva, 2006), a síndrome de Burnout apresenta três aspectos básicos: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. O primeiro se caracteriza pelo total esgotamento na energia física e mental decorrente do envolvimento emocional demasiado e da sobrecarga de tarefas. Com isso, o profissional torna-se irritável, insensível, isolando-se dos colegas e clientes. Ocorrendo a exacerbação desse distanciamento emocional, pode-se chegar à despersonalização, quando o vínculo afetivo é substituído pelo racional, não vendo mais o outro como ser humano. Malagris (2004, apud Silva, 2006) afirma que o entusiasmo característico do início da carreira é substituído por um modo depressivo. O distanciamento emocional associado à despersonalização pode trazer sentimentos de culpa e angústia ao profissional, que experimenta, então, reduzida realização profissional.

No caso dos professores, segundo Reinhold (2002 apud SILVA, 2006), podem ser vistas diversas fases da síndrome de Burnout. A primeira delas é o idealismo, momento de entusiasmo e energia em relação ao trabalho, sendo seguida do realismo, quando há a percepção de que as aspirações e os ideais não correspondem à realidade, o que é acompanhado do sentimento de frustração e de não recompensa. Isso faz com que o professor intensifique seu trabalho para sentir-se realizado, porém, com isso, surgem o cansaço e a desilusão, que leva o professor a questionar sua competência. A terceira fase, identificada como de estagnação e frustração ou quase-burnout, é marcada pela fadiga crônica, nesta aparecem os sintomas de irritabilidade, fuga dos contatos, atrasos e faltas. Posteriormente, vem a fase da apatia e Burnout total, em que o professor já se encontra em desespero, com auto-estima destruída e até mesmo em depressão. Aqui, aparece o anseio por abandonar o trabalho. Por fim, há a fase chamada de fenômeno fênix, que nem sempre ocorre. Ela é caracterizada pelo abandono do trabalho, mesmo antes de se recuperarem.

            Em seu artigo, a autora também apresenta duas pesquisas sobre o Burnout entre os professores, sendo uma delas realizada no estado de São Paulo, entre os anos 1990 e 1995, baseada nos dados obtidos da Secretaria Estadual de Educação, e outra, no Rio de Janeiro, em oito escolas do município de Duque de Caxias. A primeira investigou que houve um aumento de 300% nos pedidos de exoneração do magistério, que teve como principais motivos as precárias condições, a insatisfação no trabalho e o desprestígio profissional, além dos baixos salários. A segunda, que teve uma amostra de 71 professores, investigou as três dimensões do Burnout: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. Encontrou-se que todos apresentavam despersonalização (tratamento frio dispensado às pessoas) e 67,6% apresentava baixa realização pessoal no trabalho.

            A partir do apresentado, observou-se que muitos professores têm sido acometidos pela síndrome de Burnout, o que pode ser explicado de diversas maneiras. Porém, de acordo com as pesquisas, as condições precárias de trabalho e a falta de perspectivas profissionais estão contribuindo marcantemente para o abandono da profissão. Indo mais adiante, a autora afirma que a reestruturação produtiva e as reformas neoliberais em curso no campo da educação são mudanças que tendem a contribuir para a ampliação do Burnout, já que há uma crescente precarização do trabalho do professor.

Referência

SILVA, Maria Emília Pereira da. Burnout: por que sofrem os professores?. Estud. pesqui. psicol.,  Rio de Janeiro,  v. 6,  n. 1, jun.  2006 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S180842812006000100008&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em  12  set.  2011.

 

Educação · Saúde

Alguns minutos com Alzheimer…

Como seria ter Alzheimer? Acho que muita gente já se perguntou isso e, na verdade, nenhuma gostaria de passar pela experiência – melhor ficar na curiosidade mesmo. Mas quem tem contato com algum familiar e/ou conhecido com essa doença acaba passando por certas situações que dão algumas “dicas” do que pesado pode ser perder a sua identidade até para você mesmo.

Quanto mais e melhor entendermos uma pessoa com DA, maior e melhor é o carinho com o qual a tratamos porque podemos nos identificar com ela, nos colocar em seu lugar e entender que ela não faz por mal ou ela não lembra, ela não sabe onde guardou ou ela tem medo. Com empatia podemos cuidar desse paciente de maneira com que ele consiga confiar e se expressar da melhor forma. 

A jornalista Gisele Servare se colocou no lugar de uma mulher com Alzheimer e escreveu esse belo e triste conto que, além de emocionante, nos convida a fazer esse exercício da empatia. Vale a pena conferir na íntegra este texto, tão sensível e reflexivo:

Quero abrir os olhos mas eles parecem grudados, como se eu tivesse dormido por muitas e muitas horas seguidas.

Na verdade, não me lembro quando fui para a cama, nem de ter ido dormir. Não percebo a presença de André ao meu lado, já deve ser tarde. Meu corpo pesa e só com muita dificuldade consigo abrir os olhos. E tomo o susto da minha vida. Esse não é o meu quarto! Sinto minha espinha gelar e quero gritar, mas minha voz também parece assustada demais para sair. Decido observar tudo devagar e me sinto meio drogada. Qualquer movimento custa muito esforço e dói. Será que fui sequestrada? Será que sofri um acidente e estou no hospital? Quero levantar, mas as pernas parecem mesmo feitas de chumbo. E por que não consigo nem enxergar direito?

“Você já acordou? Está muito frio aqui para você?”

A voz que conversa comigo é carinhosa, mas isso não evita que me assuste e tenha medo. Quem é esse rapaz, e o que faz aqui no meu quarto? Puxo o lençol espontaneamente para me cobrir, não me lembro o que vesti antes de dormir.

Aliás, não consigo me lembrar de muita coisa: o que aconteceu e como vim parar aqui? Não tenho a menor idéia.
O rapaz, ao me ver puxar o lençol, entende que estou com frio, vem até a minha cama e inclina-se sobre mim. Num impulso, quero esbofeteá-lo para me defender, mas meu movimento é tão devagar que não o surpreende, e ele segura meu braço no ar.

“Não comece de novo com isso, Nana. Sem violência, vamos ter um dia bom, não é? Quer tomar o seu café da manhã agora?”

Tenho então certeza de que fui seqüestrada e drogada. Não me lembro de nada e me sinto muito mal e sem forças.

Me sinto tão confusa que não consigo articular nenhuma frase. E porque ele me chamou de Nana? Será que me confundiram com alguém e me sequestraram? Afinal de contas, não existiria nenhum motivo aparente para um sequestro. Não somos uma família de posses, André não tem inimigos e seu trabalho na Companhia é uma atividade sem riscos e entediante.

Junto todas as minhas forças e tento me comunicar. Até minha voz soa estranha e muito nervosa quando emito os primeiros sons, mas tomo coragem e continuo:

“O que está acontecendo aqui? O que você fez comigo?”

O rapaz me olha com um sorriso debochado. Sinto vontade de apertar o pescoço dele.

“Como assim, Nana? Você acordou e eu te perguntei se você já quer seu café da manhã, só isso. Nada demais. Não se preocupe. Está tudo bem.”

Ele sorri e apesar do meu medo, meu coração se aquece ao vê-lo sorrindo. Não sei quem ele é, mas sei que o amo.

Meu Deus! O que está acontecendo comigo? Sinto minhas bochechas queimarem e tenho vergonha dos meus pensamentos.

Como posso amar outro homem, se sou casada com André e temos uma vida de casados boa, feliz e tranquila? Embora, pensando bem, no turbilhão dos sentimentos que despertam dentro de mim, sei que o que sinto por esse homem é diferente. É uma espécie de…. Gratidão? Mas como, se minha suspeita é a de ele me sequestrou?

“Onde está André? Quero falar com ele.”

O sorriso no rosto do rapaz desaparece. Tenho medo dessa reação. Tenho medo de sua resposta, mas preciso ouvir. Um sexto sentido arrepia minha pele, as lágrimas vêm e não as impeço. O rapaz me olha agora com piedade e senta-se à beira de minha cama:

“Nana, eu sofro tanto todas as vezes que você chora por ele. Acho que você nunca vai esquecê-lo!”

Se antes tinha dúvida, agora tenho certeza que algo aconteceu com André. Minhas lágrimas viram soluços e o rapaz me abraça. Eu quero repelir seu abraço no começo, mas depois ele é bem-vindo. Sei que confio nesse rapaz e não sei por quê. Quero abraçá-lo também e somente então percebo o estado do meu corpo fragilizado: meus braços estão só pele e osso. Minha espinha gela outra vez.

Eu o empurro e entre lágrimas, imploro uma explicação.

“Pelo amor de Deus, me explique o que está acontecendo. Eu fui sequestrada? Há quanto tempo estou aqui? E o que de fato aconteceu com André? Eu preciso falar com alguém, com meus pais! Eles devem estar preocupados comigo! Por favor, se você tem algum carinho por alguém na sua vida, me deixe falar com alguém de minha família!”

Meu choro é intenso.

“Você primeiramente precisa se acalmar. Vou buscar um copo de água.”

Ele se levanta e sai do quarto, com uma calma que destoa do meu estado de espírito. Será que ele não entende a gravidade da situação?

O rapaz volta com um copo de água e seu sorriso estampa sua alma para quem quiser ver. Eu confio nele. Tenho certeza disso. Mas isso não muda a tempestade dos meus pensamentos. Tomo a água e ele afaga meus cabelos. Em outras circunstâncias eu recusaria esse carinho, mas não luto mais. Aceito o que ele tem para me oferecer. No momento é tudo o que eu tenho. As lágrimas, que tinham feito uma pausa, voltam a descer, mas um pouco mais contidas. Eu tomo coragem e pergunto:

“Me diga com sinceridade…”

Ele me interrompe:

“Primeiro você tem que me dizer o meu nome. Senão não respondo nada com sinceridade.”

Ele não está bravo. Pelo contrário, sua voz vem aveludada de carinho. Isso me encoraja:

“Como eu vou saber seu nome? Nunca te vi antes na minha vida!”

“Puxa, Nana, assim você me magoa. Quer dizer que tudo que aconteceu entre nós não significou nada para você?”

Seu sorriso chega meio debochado e eu não sei o que pensar. Sim, alguma coisa me diz que já nos vimos antes. De repente, não sei o motivo, mas um nome me vem à mente.

“Ricardo.”

Ele abre mais um sorriso encantador e por um segundo, esqueço que estou com medo e confusa, e sorrio junto com ele.
“Muito bem! Agora sim, temos uma base para começar nossa conversa.”

“E por que você me chama de Nana? Ninguém me chama assim! Meu nome é Mariana!”

“Eu sempre chamei você de Nana. Já faço isso há muitos anos e não vou mudar isso agora.”

“Mas como assim, há muitos anos? Por favor, me ajude! Eu sei que posso confiar em você, me explique o que está acontecendo!”

Eu queria ter gritado com ele, mas minha voz sai como um fiozinho de som…. Eu devo realmente estar muito doente.

Não domino praticamente nada do meu corpo, que parece ter deixado de obedecer aos comandos de minha mente, fazendo com que minhas reações sejam lentas, pesadas, enfraquecidas. Sinto minha cabeça explodir e Ricardo se levanta mais uma vez, entretanto não diz nenhuma palavra. Ele me deixa a sós e fecho os olhos. Se eu dormir novamente, pode ser que acorde em uma outra realidade. Posso estar no meio de um pesadelo!

“Pronto, trouxe seu café da manhã, do jeito que você gosta.” Ricardo senta-se de novo à beira da cama e traz uma bandeja com café com leite e pão com manteiga, além de uma vasilha pequena com salada de frutas e iogurte. “Você está com dor de cabeça, não é? Ontem dormiu sem jantar. Deve estar com fome.”

Ontem… Não me lembro de ontem. No máximo me lembro de antes de ontem, quando André e eu fomos visitar nossos amigos Laura e Daniel em seu novo apartamento na Cidade Alta, e voltamos tarde para casa, eu descalça pelas ruas de Vitória, nós dois rindo alto e perturbando os bons moradores de nosso bairro, que queriam dormir seu sono justo de uma terça-feira qualquer. Não me lembro de um dia de ontem, quando fui dormir sem jantar.

Não discuto com ele. Realmente estou morrendo de fome. Ele me ajuda a sentar e colocar a bandeja sobre meu colo. Em seguida, me estende um par de óculos, que assento sem discutir imediatamente e o que já me faz sentir melhor, apesar de nunca ter usado óculos. Olho com mais atenção à minha volta e reparo em seu rosto. Ricardo é lindo!

Tomo um gole do café mas continuo fascinada com seu rosto. Seus olhos me lembram alguém…. Algo em sua fisionomia é tão familiar, mas, ao mesmo tempo, tão estranha!

“Você quer me perguntar alguma coisa?” Ele afaga novamente meus cabelos e me sinto bem. Tomo coragem para enfrentar a verdade.

“Há quanto tempo estou aqui?”.

Ele parece pensar demais para uma pergunta tão simples. Sua resposta vem em forma de outra pergunta.

“Você sabe onde você está?”

“Não”, respondo com sinceridade.

“Você está em casa, Nana. Aqui, você já mora há dez anos.”

Dez anos! Ele só pode estar brincando. Dez anos! Ele diz isso como se falasse em dez minutos. Se tivesse dito dez dias eu poderia até acreditar, pois acho que dormir realmente por muito tempo. Mas… dez anos? Eu não posso e nem quero acreditar, mas preciso continuar perguntando.

“E quem é você? Por que está cuidando de mim? E que diabos aconteceu?”

“Meu nome é Ricardo, mas disso você se lembra. Mas vejo que está na hora de você ler seu diário. Termine o seu café da manhã que eu já o trago. Me dê cinco minutos.”

Como sabe do meu diário eu não sei, mas quando ele fala disso, meu coração se acalma. Ele sai novamente do quarto e continuo a comer, ansiosa para rever meu diário, que escrevo desde os 13 anos. Não escrevo todos os dias, mas os acontecimentos mais importantes de minha vida estão lá.

Sinto de repente muita falta de André. Meu peito dói de saudade. Preciso sentir sua mão em meu rosto, preciso de seu abraço. Quem sabe ele está em algum lugar assim, como esse onde estou? Se eu puder encontrá-lo, podemos juntos descobrir o que nos aconteceu. As lágrimas voltam e não consigo terminar de comer. Ricardo volta com o diário em suas mãos. E quando me vê chorando, tira a bandeja de minha frente e me abraça novamente:

“Nana, Nana! Hoje teremos mais um dia cinza, não é mesmo? Olha, fique calma! Já você vai se sentir melhor.”

Ele me dá um beijo na testa, me entrega o diário, um envelope com lenços de papel e sai do quarto.

Respiro fundo. Tomo coragem e olho resoluta para meu diário, finalmente algo familiar, embora pareça mais pesado que o normal. Vou abrindo pelas estações de minha vida: lá estão as fotos do meu baile de aniversário de 15 anos. As férias com meus pais em Cabo frio. Aos 18, as primeiras fotos com André, ao lado da moto – onde nunca me carregou, apesar de todos os meus milhões de pedidos.

Sempre quis andar de moto, André tinha medo de que me machucasse, e nunca, nem durante nosso namoro, nosso noivado e mesmo depois do casamento, permitiu que eu subisse na garupa de sua motocicleta.

Tomo um susto ao ver que o diário não para por aí. Estranhamente, depois do casamento, em 1960, ele continuava bem mais longo do que o normal. Afinal, sou casada há dois anos com André e estamos no ano de 1962…. Ou será que não?

“18 de setembro de 1963. Hoje descobri que estou grávida. André chorou de alegria com a notícia e disse que quer que eu engorde pelo menos 30 quilos. Eu disse que só se ele também for engordar. Ele levou a sério. Comprou dois litros de sorvete e comemos tudo no almoço. Vomitei uns três litros logo depois. Desse jeito, acho que vou emagrecer em vez de engordar na gravidez”.

Grávida? Num impulso, afago minha barriga. Como assim? E como não me lembro? Não quero continuar a ler, quero devorar rapidamente as informações que encontro e prefiro me concentrar nas datas das postagens e as fotos que vou encontrando. Sou assaltada por relatos e imagens de coisas que nunca vivi. Mas nas fotos, aquela sou eu: eu com um bebê no colo em 1964. Depois, André me abraçando e segurando uma menina no colo em 1968, enquanto eu afago outro bebê no colo.

1972, nós quatro em férias numa praia na Bahia. 1979, a menina com traje de gala e embaixo da foto a legenda “Gabriela. Nossa debutante”.

Estou muito confusa. Ainda há muitas páginas depois daquela. Se as fotos não estiverem mentindo, a vida passou sem que eu tivesse vivido nenhum daqueles momentos retratados ali. Faço uma pausa para respirar. Sou mãe. Há muitos anos. E não me lembro dos meus filhos. Por alguma razão acredito em todos esses absurdos e sinto … saudade dos meus filhos? Ricardo! Agora sim, eu sei de onde reconheço suas feições! Ricardo é meu filho!

“Ricardo!” – eu junto todas as forças que tenho para chamá-lo.

“O que foi, Nana?” – ele vem correndo, mas parece se acalmar ao ver que está tudo bem. Ele se aproxima: “Ah, o diário, Em que parte você está? Quer que eu veja junto com você?”.

“Você é meu filho?” – eu pergunto sem rodeios, e ele ri.

“Não, Nana. O nome de seu filho também é Ricardo, mas eu sou bem mais bonito que ele. E tenho mais cabelos.”

A verdade vem como uma bomba, difícil de acreditar, mas, de repente, eu sei. Ricardo é meu neto.

E de súbito me lembro de Ricardo Júnior, pequeno, em cima da goiabeira, com seus sete, oito anos de idade.

“Nana, olha, eu sei voar!”, ele diz, enquanto eu tento correr, mas chego tarde demais. O menino despenca lá de cima, na queda bate o rosto numa pedra, o sangue jorra de sua testa. “Ai minha perna!”, ele grita, enquanto eu grito para dentro de casa:

“André, rápido, Júnior caiu! Vamos para o hospital, corre!” Na pressa, olho para os pés de Júnior – é assim que o chamamos: Júnior, e não Ricardo! – e vejo que suas unhas estão grandes demais. Tenho raiva da esposa de Ricardo – até me lembro de seu nome, é Cretina. Não, na verdade, o nome é Cristina, mas eu sempre a chamava de Cretina quando falava com André sobre ela. Tenho raiva da Cretina, porque ela não cortou suas unhas do pé de seu único filho.

“A Cretina não cortou suas unhas, e você quebrou a perna”, eu falo como se Júnior pudesse saber para onde meus pensamentos haviam me levado. Saber ele não sabia, mas sua risada já mostrava que sabia de quem eu estava falando.

“Puxa, Nana, você sempre foi cruel com a minha mãe. Tadinha, ela gostava tanto de você!”

Gostava. Não gosta mais. Eu me lembro. Cristina morreu num acidente de carro. Ela foi enterrada com um vestido azul-claro. Eu comprei Lírios para ela. Chorei de arrependimento por muitos dias, por ter feito de sua vida um inferno, por ter tido tanto ciúme.

“Ela morreu, não é?”. Eu pergunto mas já sei a resposta. Onde estavam todas essas lembranças, meu Deus. Queria tomar um Martíni. Mas eu acho que já era uma mulher com mais de 60 anos. Pelo jeito com mais de 70. Acho que meu neto não iria me dar um Martíni. Não deixo ele responder sobre a morte de sua mãe, eu preciso muito de um gole, agora.

“Você me dá um Martíni?”.

Júnior olha no relógio e ri mais uma vez.

“Nana, de uns tempos para cá você está virando cachaceira. Vive me pedindo Martini, Vodka, Gin Tônica… Além do mais, eu já te dei sua dose de hoje, não lembra?”

Não, eu não lembrava, mas pela primeira vez, tenho certeza de que ele está mentindo. Sei que não bebi nenhuma gota de álcool hoje, e pelo jeito, tem muitos anos que não bebo nada.

Folheio o diário mais um pouco. Eu sei o que estou procurando. Preciso saber o que aconteceu com André. Sei que vou achar ali a resposta, e já começo a chorar. Júnior acaricia de novo meus cabelos, e abre na página que sabe que procuro:

“Eu não consigo mais te dar essa notícia. Você parte meu coração todas as vezes com o seu sofrimento”. Lanço os olhos sobre o papel e encontro a certeza da minha suposição:
“4 de maio de 1990. Hoje perdi minha alma gêmea. Não sei como vou poder viver sem você, André, meu amor. Não quero continuar a viver num mundo onde não veja seu sorriso todos os dias. Por favor, Deus, me leve junto com o meu amor”.

Eu caio num choro tão desesperador, que começo a perder o ar. De repente eu sei. É aquela dor, tão forte que parece que vai rasgar cada centímetro de meu corpo. André se foi, e poderia jurar que isso acabou de acontecer. Como vou viver sem ele? Não consigo dormir sem que ele já esteja na cama. Não sei viver sem suas piadas, sem seu carinho, sem sua implicância com meu cabelo.

“Não vou conseguir viver sem ele! Meu Deus, como isso dói!” . Eu vou me desfazendo em choro e Júnior segura minha mão. Seus olhos estão úmidos. Ele não fala mais nada, e sou eu quem deveria consolá-lo, mas estou muito destruída para isso. Ele me ampara:

“Nana, isso foi há quase 20 anos. Você vai conseguir, como conseguiu todos esses anos. Estou com você.”
Fecho o diário. Não sei se quero saber de mais nada. Antes de ontem, quando dormi, minha vida estava segura. Hoje, acordei 50 anos mais velha. De tudo o que vivi, só trago as dores do que perdi. Não entendo o que aconteceu. Estou confusa. E muito triste.

“Por que eu não me lembro, Júnior? É tudo o que eu quero saber.” Por algum motivo, eu fui julgada e condenada, mas não sei por quê. Que tipo de pecado eu cometi, para que fosse castigada dessa forma – perdendo a consciência de minha vida inteira? Perdendo todos os que amo… E meus pais, meus irmãos, meus amigos…. o que aconteceu com eles durante esse tempo?

Júnior segura minha mão. Tira do bolso um pequeno aparelho e me entrega, apesar de meu olhar confuso e depois de apertar algumas teclas.

E numa tela, eu apareço ao seu lado, ali, naquele quarto. Meu rosto eu reconheço, por trás de rugas e sulcos advindos de experiências das quais não me recordo, emoldurado por cabelos brancos, ao invés dos cachos negros de que André tanto gostava. Mas essa sou eu. Os olhos são meus e o sorriso – como eu posso estar sorrindo? – é todo meu.

Eu, na tela, começo a falar:

“Hoje estou aqui do lado do meu neto Júnior para falar para mim mesma que tudo vai acabar bem. Às vezes eu acordo muito confusa, não me lembro de nada, as vezes não me lembro de ninguém. Mas isso é porque há alguns anos sofro de uma doença chamada Alzheimer. Ela me faz esquecer às vezes de coisas muito importante, como as pessoas que amo e o que vivi em vida”.

A minha imagem naquela tela é a de uma mulher segura e confiante. Alzheimer. Esse é o nome do ladrão que roubou minha vida. Enquanto falo, Júnior está ao meu lado e me olha com o mesmo carinho com que me olhou desde o momento que acordei. O Júnior da tela motiva a Mariana da tela a falar mais.

“E conta para nós, Nana, o que são dias de cor e o que são dias cinzas?”

“Dias cinzas”, eu digo dentro do aparelho, com segurança, “são dias em que me esqueço do presente e só me lembro de coisas que aconteceram há muitos anos. Aí tudo o que passei de tristeza em minha vida dói do mesmo jeito outra vez.”

“Já os dias de cor”, o Júnior da tela sorri enquanto o Júnior de aqui e agora continua abraçado comigo- “são os dias em que você se lembra das coisas importantes e só se esquece das menos importantes. Ah, e os dias em que não me bate, não me chama de tarado ou oportunista ou mesmo me faz um pedido de casamento. Se bem que os pedidos de casamento eu acho sempre engraçados.”

A eu da tela dá uma gargalhada antes de continuar a falar, e eu do lado de cá sou obrigada a rir. Hoje mesmo quis esbofeteá-lo. Se tivesse tido forças, o teria feito com certeza.

“Mas nem tudo é ruim com essa doença. Ela trouxe um anjo para minha vida e seu nome é Júnior. Ele é meu neto, mas cuida de mim como se fosse meu pai”.

“De vez em quando você me chama de pai mesmo”.

Rimos, do lado de lá e do lado de cá da tela. Imagino quantas vezes Júnior já me mostrou esse vídeo e esse diário, quantas vezes já teve que consolar pela morte de André, que provavelmente dói da mesma forma todas as vezes na minha alma. Abraço o meu neto e me sinto agradecida. Eu não me lembro de nada do que vivi, sinto uma grande tristeza pelo que perdi, mas sei que sou amada e só isso vale a pena. Por um rapaz, que não deve ter 30 anos e escolheu cuidar de sua avó doente e maluca em vez de viver sua vida.

Ele segura as minhas mãos e me olha com muito carinho.

“Está mais calma, Nana?”

“Estou sim, Júnior. Obrigada mais uma vez”.

“E o que vamos fazer hoje? Vamos conquistar o mundo?”

Eu penso numa resposta. O que fazer quando se esqueceu do que aconteceu nos últimos 50 anos de sua vida? De repente, uma luz. Eu sei bem o que queria fazer há 50 anos. Não podia, não tinha oportunidade, mas agora, quem sabe?

“Será que conseguimos dar um passeio de moto? Eu sempre quis andar de moto. André nunca quis me carregar”.

Pela gargalhada de Júnior, eu já havia feito a mesma pergunta outras vezes. Ele se abaixa aos pés da cama e tira de lá um capacete rosa, com as palavras NANA gravadas com letras douradas.

“Vamos lá, Nana. Nossa moto está à sua espera.”

Fonte: Alzheimer 360

Educação · Filme · Saúde

#SessãoPsi O Círculo

Mae é uma universitária cujo sonho é trabalhar na maior empresa de tecnologia do mundo, O Círculo. A organização foi fundada por Eamon Bailey e o seu principal produto é o SeeChange, uma pequena câmera que permite aos usuários compartilharem detalhes de suas vidas com o mundo. Mae vê sua vida mudar completamente quando é contratada pela empresa e sua função passa a ser documentar sua vida em tempo integral. O que ela não imaginava, no entanto, é que toda essa exposição teria um preço, não só para ela, mas também para todos ao seu redor.

Pra quem assistiu Black Mirror, esse filme é bem bobinho e fraco, mas não desdenhe dele não. A proposta de discutir os efeitos e a influência da tecnologia nas nossas vidas sempre é válido, principalmente quando se toca em aspectos que não pensamos muito e simplesmente reproduzimos. Eu já falei aqui sobre a série nesse post e coloquei os meus episódios favoritos em ordem de preferência, dêem uma passada lá e comentem sobre os seus episódios favoritos.

Ignorando a existência do ótimo Black Mirror, pensemos no filme como algo inédito. A ideia de um dispositivo que “una” as pessoas 24 horas a esse nível de intimidade é algo que acredito não estar muito longe. Só se diferencia da nossa atualidade porque ele existe em diferentes dispositivos e/ou plataformas: transmissão ao vivo de facebook e instagram, redes sociais como facebook e twitter armazenando comentários e conversas, linkedin para contatos profissionais, entre outros. Não duvido nada que exista empresas desenvolvendo dispositivos como o do filme e com a quantidade de informação que eles captam e nós liberamos por aí, o controle é feito da maneira mais natural possível. 

Educação · Saúde

Dia Mundial do Cérebro

Hoje é considerado o dia mundial do cérebro e reuni diversas reportagens de um programa bem conhecido de todo mundo, o Bem Estar, falando sobre ele e questões diretamente relacionadas (se bem que tudo passa por ele, né?) como estratégias para melhorar alguma função, alimentação entre outros.

ATENÇÃO

Como controlar a desatenção?

Qual o perfil do paciente com TDAH?

TDAH e concentração e memorização

MEMÓRIA

A construção da memória

Academia do Cérebro

Sono é fundamental para a memória

Estratégias para se estimular a memória

A dieta do cérebro

Dica da neurocientista: treine o cérebro para não comer doce

A gagueira e o lado direito do cérebro

Dormir permite a limpeza do cérebro

Autoestima é o sistema imunológico do cérebro

Educação · Livro

Análise dos capítulos IV e VI do livro “A Produção do Fracasso Escolar”

INTRODUÇÃO

A partir da leitura do texto de Maria Helena Souza Patto, assim como os outros que foram apresentados e discutidos na disciplina, trouxeram novos olhares para o papel que o psicólogo deve desempenhar dentro de uma instituição escolar.

            Segundo Maria Cristina Kupfer (2004) a psicologia escolar ocupava o lugar de uma prática corretiva das ações dos professores sobre as crianças, buscando identificar os problemas de aprendizagem das crianças. A partir do momento em que ele entra no contexto escolar, a visão de psicólogo se altera e ele percebe o peso dos determinantes sociais sobre os problemas de aprendizagem.  Ele passa a entender a existência de uma relação de determinação recíproca entre os elementos daquela instituição, se incluindo nas discussões e não só detectando os erros.

            No texto de Maria Helena Patto (1990), são mostradas situações vividas na década de 80, mas que permanecem atuais. Professores desmotivados, alunos taxados de casos “irreversíveis”, famílias sem condições de estimular seus filhos e tantas outras questões que influenciam o desempenho da criança. Mas teria a escola algum papel nesse contexto? Haveria algo que ela pudesse fazer para reverter esse quadro?

            CASO DE (RE)PROVAÇÃO ESCOLAR

            O caso que será utilizado no presente trabalho se refere à história de Ângela, filha de José e Cícera, vindos de Pernambuco e pais de mais 5 crianças. Sua mãe deposita na filha mais velha muitas obrigações domésticas e maternas, oscilando entre os papéis de mãe e filha. Seu pai não é presente, tendo como função maior ser o provedor da casa e não um pai amoroso e marido atencioso. Procurei transcrever certos trechos que me chamaram a atenção e comentá-los.

            Uma questão muito interessante trazida pela pesquisadora foi a relação mãe e filha e o quanto isso influenciava no comportamento e na postura empregada pela menina. Em certo momento, é dito

“… estabelece com sua filha mais velha uma relação na qual ambas são ao mesmo tempo filha e mãe. De um lado, preocupa-se com o futuro de Ângela e deseja que ela estude, de outro quer que ela assuma os cuidados com os irmãos e com a casa para que possa concretizar o sonho de redenção da família através de ser trabalho.” (p.355)

                Desde pequena, a criança tem, como parte de suas obrigações, ajudar a mãe nos afazeres domésticos. Ela cuida dos irmãos mais novos, lava louça e limpa a casa, ocupando a maior parte de seu tempo para essas atividades, após o horário reservado para as aulas. A mãe, ao mesmo tempo em que deposita na filha antigos desejos de progredir pelos estudos e buscar melhorias de vida, vê naquela, uma possibilidade de passar suas responsabilidades de mãe para outro para alcançar esses desejos. Na escola essa posição é percebida e, no laudo, houve uma orientação para que a mãe tivesse uma orientação.

            Com relação aos professores, também houve espaço para sabermos um pouco sobre como era a visão deles.

“A prática comum entre as professoras de fazer comentários negativos sobre as crianças diante de quem quer que seja, incluindo a própria criança, é uma das principais responsáveis pela estigmatização de que muitas são vítimas, entre elas Ângela.” (p.359)

A professora da aluna Ângela, Neide, encontra-se desestimulada e desacreditada em sua turma. São alunos considerados “difíceis” e ela já teria a certeza de que não conseguiriam ser aprovados por terem famílias desestruturadas, sem instrução e que não incentivam os estudos dos filhos. Para ela, as crianças são desinteressadas, dispersas, “fracas” etc, ou seja, os problemas são externos ao contexto escolar.  Sua maneira de ensiná-los, nem sempre muito compreensível, não é questionada e não é voltada para uma criança que precise de um reforço nos estudos, tornando a aprendizagem algo difícil.

Em outro momento, a questão da capacidade mental da aluna é questionada, tanto pelos pais, que acreditam que uma das possíveis explicações seja um déficit, quanto pela professora, após ler uma avaliação psicológica.

“Seu comportamento em sala de aula não sugere qualquer tipo de deficiência mental; seu desempenho não difere do da maioria de seus colegas (…), não entende explicações muitas vezes incompreensíveis, revela capacidade num curto período no qual é objeto de atenção e da simpatia da professora, para voltar a procurar a janela como possibilidade de ‘fuga’ de uma situação mortificante (…)” (p. 359)

            O que foi observado e pontuado pela pesquisadora foi que a questão escolar nunca foi considerada no fechamento do laudo, ou seja, qualquer problema que tenha “causando” a dificuldade na aprendizagem da criança foi proveniente da sua subjetividade e da dificuldade que ela enfrentou, no espaço doméstico, de ser criança. A relação com os outros alunos, com a professora, a didática utilizada em sala de aula, a maneira com que a aluna lidava com tudo isso não foram levadas em consideração e nem pensadas como fatores relevantes no desempenho da menina.

DISCUSSÃO/CONCLUSÃO

      O psicólogo escolar tem um papel de extrema importância no contexto escolar, não para diagnosticar e apontar dificuldades, mas para ouvi-las e permitir um trabalho em cima do que pode ser feito, dentro da escola, a partir de uma troca de informações entre aluno, professor, diretor, inspetor, enfim… Pessoas envolvidas no aprendizado do jovem. trazer a questão para a escola. O psicólogo deve ser capaz de compreender que o meio externo tem sua parcela de influência no meio escolar, seja no comportamento, na postura, no envolvimento com as atividades propostas, mas que a criança, quando pertencente a uma turma, dividindo o espaço com outros indivíduos – alunos e professor – tende a se comportar e a responder à tudo vivido naquele espaço.

Os pais devem ter essa consciência e questioná-la, buscando uma solução. No caso dessa falta de iniciativa ou, até mesmo, falta de percepção do problema, o psicólogo escolar pode se tornar um mediador dessa relação e promover a conversa entre os lados. Além disso, os professores também podem ser acionados para elucidar o verdadeiro “problema”, onde está o erro e como podemos consertá-lo, a partir da premissa de que são eles os que possuem maior contato e conhecem melhor seus alunos, além de conhecerem a proposta pedagógica do colégio e as condições de ensino oferecidas por ela.

            Segundo os parâmetros trazidos pela autora Kupfer (2004), o psicólogo tem como objetivo promover a abertura de um espaço em que haja a possibilidade de falar e ser ouvido; de poder intervir/trabalhar com a transferência, quando existente, escutar, no sentido psicanalítico, a demanda da escola, trabalhar entre a psicologia e a pedagogia; e trabalhar focado naquilo produzido pelos outros e não os sujeitos. Dessa maneira o psicólogo atuará de forma não clínica, mas o mais integrado à escola possível. Há inúmeras questões que poderiam ser abordadas utilizando o caso, porém estas foram as que mais me chamaram a atenção e por não terem nenhum tipo de acompanhamento por parte da psicologia da instituição.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

STOLZMANN, M. M., RICKES, S. M. Do Dom de Transmitir à Transmissão de um Dom, p.39-51. In: REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE / Associação Psicanalítica de Porto Alegre. – n° 16, 1999. – Porto Alegre: APPOA, 1995, — Absorveu: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.

KUPFER, M. C., (2004). O que toca à/a Psicologia Escolar. In: MACHADO, Adriana Marcondes; SOUZA, Marilene Proença Rebelo, (org.). Psicologia Escolar: em busca de novos rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, 4a ed.

PATTO, M. H. S. A Produção do fracasso escolar. São Paulo: T. A. Queiroz, 1990.

 

Animais · Filme · Saúde

#SessãoPsi Um Gato Chamado Bob

Enquanto trabalhadores lotam as ruas de Covent Garden, em Londres, um simpático gatinho laranja chama a atenção da multidão. Com um vistoso lenço em volta do pescoço, Bob, como é chamado, vive com James Bowen, que toca música pela cidade com seu violão surrado. Mais do que um companheiro de rua, Bob é protagonista da história de superação e da luta contra as drogas de seu dono.
Baseado em fatos reais.

Que delícia de filme! Você pode achar que o máximo que esse filme vai trazer são risos e gemidinhos pela fofura e amizade entre os dois personagens principais, James e o gato Bob, mas ele vai além. 1) Superação. Uma pessoa que já tinha chegado ao fundo do poço, sem família, com “amigos” com interesses suspeitos, mas com uma assistente social que acreditou nele e o ajudou. 2) Amizade. Algo que te ocupe a mente, alguém que te faça acordar no dia seguinte. Sem dúvidas o gato foi uma fonte de forças para o James porque ele sabia que se acontecesse algo com ele, o gato sofreria de fome e solidão. 3) Metas. A partir do momento em que se acredita e se planeja algo, fica muito mais fácil levantar e começar o dia. Por isso é importante se criar objetivos de vida, mesmo que de curto prazos porque isso motiva. 4) Empatia. Conhecer a história de um morador de rua ex-drogado e saber que a vida que ele tem não é a mais confortável ou feliz, nos aproxima mais e nos faz termos empatia por ele. Desejamos que ele vença o vício e consiga trilhar um caminho rumo ao sucesso. Isso nos permite a generalizar e a criar empatia a outros moradores de ruas e usuários de drogas. Todos tem uma história por trás e nem sempre é a mais agradável.

Ps1: o ator que fez o papel de James, o Luke Treadaway, canta na trilha sonora e a música que fecha o filme me fez ficar alguns minutos dos créditos chorando de soluçar. O por quê? Se souber da resposta, por favor, me diz porque até agora não entendi. Acho que foi todas as emoções vividas durante o filme que transbordaram ali.

Ps2: E na época em que a história ficou conhecida, o Jornal Nacional apresentou James e o Bob:

PS3: Bob conheceu a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, na estreia do filme em 2016

He met the Duchess of Cambridge (pictured) at the film premiere in London on Thursday night